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Soslaio
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Quinta-feira, Julho 09, 2009
Terça-feira, Julho 07, 2009
A tua solidão na minha
Sente-se, por favor, sente-se que eu trago alguma coisa para comer. Do que gosta? Posso tratá-lo por tu? Do que gostas então? Também eu tenho boa boca. E sim, também gosto do teu sorriso, já te vira nele durante a semana passada quando chegaste à aldeia, neste cinzento escurecido que ninguém de fora se lembra. Passam cá, quatro em quatro anos, uns carros coloridos agitados, cheios de gente que está noutro lado, a olhar o futuro que querem ver. Fora isso, nem o padre se lembraria deste canto se não lhe entretecem os olhos caídos de Helena, a menina do Conde. E vieste tu, com o teu riso determinado para arranjar a velhice desta terra, a pintar-nos nas mãos as cores do progresso, na tua ânsia de agarrar qualquer mundo que te passe na frente. Tão diferente que és desta... O que dizes? Solidão? Sim, é disso que se revestem estas casas. Vem no vento que passa, na geada que fica. Vem no silêncio velado destes ombros, meus, há muito tempo não tocados.
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Quinta-feira, Julho 02, 2009
Terça-feira, Junho 30, 2009
Nas mesas alguém num gelado
Espero quinze minutos pelo cinema. Fecho o romance que trouxe e olho em volta largado que está o silêncio da minha leitura. Uma mulher eslava, bata branca a esconder-lhe a caspa e os rasgos da calça, ténis roçados e um chapéu da pala também branco e nele a ver-se dois brincos dourados (no pescoço um colar que penso ser de ouro, doutro tempo, doutra vida). Cerca-me a mesa com a esfregona, levanto os pés, obstáculos do seu serviço, e indiferente limpa o chão em redor antes de passar à mesa seguinte. As televisões penduradas, sincronizadas, desfilam mulheres perfeitas de vestidos improváveis e entre elas notícias desgarradas do mundo e da sua temperatura. Nas mesas alguém num gelado, uma mulher a engordar-se, olhos e alma num bolo de chocolate, um rapaz livro ao lado bloco e lápis e um desespero na cara pelas palavras que não saem. E eu nisto a escrevê-lo.
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Quinta-feira, Junho 25, 2009
Terça-feira, Junho 23, 2009
como
O calor à vossa volta, o suor, a lama a entrar na sala, o sangue nas tuas mãos e nas mãos daquele homem desconhecido a quem entregas a vida do teu filho, nas lágrimas do teu marido ferido também por esta guerra que não entendes, nos gritos que da alma te abandonam e no desespero perdido deste tempo a passar. A enfermeira a rogar que saias e tu numa surdez presa ao chão à cegueira que adivinhas no vazio daqueles olhos que fizeste nascer e se esvai na tua impotência e perante o cenário e a batalha e os mortos lá fora. E aqueles mortos aí dentro de ti sempre a crescer em número, a dilatar a fila desses homens e mulheres e crianças (lembras-te do que parece um só dia de sol e paz e como a luz era forte e limpa então) (mas duvidas dessa memória, como pode ter sido o mundo justo depois do que vês agora?) que conheceste e que te atendem em silêncio.
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Quinta-feira, Junho 18, 2009
Terça-feira, Junho 16, 2009
Lisboa enfim num começo de Outono
Eu a atravessar a rua, tempo livre para olhar o empedrado, a fina água das regas, as folhas caídas, um pombo que foge dos meus passos, Lisboa enfim num começo de Outono, num início de tarde e sem razão levanto a cabeça e no vidro do restaurante, do outro lado, uma mulher que fala a alguém mas um olhar que reconheço, igual ao de minha mãe a ver sair de casa meu pai, igual ao do meu avô a definhar pela última vez na sua cama (não me lembro de mais nada desse dia, como se naqueles olhos uma torrente um remoinho de esquecimento), à professora de matemática na sua última aula antes da operação e da reforma antecipada, ao cão da quinta, calado, a saber-se morrer, outros e outros e eu também num espelho a pensar partir. Mas avanço, o restaurante afasta-se e nisto a vê-la ainda, a perdê-la para qualquer nova frase que agora ensaia.
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Quinta-feira, Junho 11, 2009
Terça-feira, Junho 09, 2009
nesse desiste que o corpo dela sustenta
A discussão começa por mais um nada e nela juntam-se os insultos típicos, o acusar de mil coisas repetidas, o expor de motivos cada dia mais estúpidos. De repente calam-se num silêncio moído, numa trégua que a nada leva mas que sempre surge. Encostam-se à janela, perto mas a olhar para fora, para o início da noite. Queres sair deste caminho mas não sabes como. E tu nessa falta de palavras, no vazio exausto desta casa e a vê-la, agora, a mexer no botão da camisa (e um pouco acima os seios dela, aquele pescoço que adoras, os lábios que te fazem esquecer tudo) a olhar para ti nesse porquê de gente, nesse interrogar pesado de tão infeliz, nesse desiste que o corpo dela sustenta. A que distância estão as vossas mãos? Quanto custa hoje a partilha de um sorriso? O que alaga ainda o espremer dos vossos anos? Não existe magia que vos resolva e a pouca esperança de crer nela foi-se há muito. Resta somente acreditar nisso.
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Quinta-feira, Junho 04, 2009
Terça-feira, Junho 02, 2009
para lá da opacidade que te limita
Os rostos uns nos outros indistintos na luz que escapa ao palco. Como se não existisses, coberto que estás nessa tua personagem. Agora (agora!) quem és? Que palavras são estas que dizes? De um autor morto há décadas, traduzidas em proveito do público para lá da opacidade que te limita? Tuas? Sejam de quem for, é no estrado que se reagem, despoletando na tua companheira outras palavras (que conheces antes que ditas. Quando sobes o palco deixas de ser rede para ser órbita cumprida. Para ti o Teatro é o desvendar de um secreto, um refluir de promessas saciadas). Quem são vocês? Um casal de velhos, uma recordação perdida da mente do escritor. Ou os que cinco anos atrás aqueceram a mesma cama, as mesmas noites de partilha em imprecisos remoinhos de alegria e tristeza? Quando te calas, vês na plateia a testemunha cega que todas as sextas, na primeira fila, vos vem ouvir. Só no silêncio do palco podes ser, por segundos, tu mesmo. Os mesmos momentos em que te apagas nesta rapariga sem nome.
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Quinta-feira, Maio 28, 2009
Terça-feira, Maio 26, 2009
nesse acumular que nos isola
Entro no comboio e sento-me no banco amarelo roído nas linhas e com os borrões de sujo que já conheço. Ao meu lado uma rapariga, um início de mulher a segurar com força a mala de pele roçada. Olha pela janela até que dos dedos solta um botão e retira o telemóvel. Observo aquele ecrã minúsculo a brilhar entre cores e palavras que não leio. Guarda-o e volta-o a tirar, espera algo, creio, e outra vez concentrado nele, num dedilhar aflito entre letras entaladas. Pessoas que entram e saem, prédios que desfilam na frente de um cortejo de nuvens negras. Tudo à nossa volta olhares perdidos, à espera de uma estação, do fim da viagem para um dia de trabalho, nesse acumular que nos isola. E agora um sinal pequeno no silêncio entre estações, entre o metrónomo do metal e da madeira desta linha, e logo ela nele a ler-lhe o mundo que apertado ali chega.
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Quinta-feira, Maio 21, 2009
Terça-feira, Maio 19, 2009
peças de dominó
O jardim, parece, cresceu. Estás perto dela mas de mãos separadas ainda no passeio limpo há pouco, numa fresca manhã de Junho sobre o verde restado neste centro de cidade. No parque, crianças a brincar (eram duas mas junta-se uma terceira seguida por uma senhora que na cara e no cansaço daquele sorriso um talvez de avó), alguns pássaros na procura das migalhas de pequenos-almoços passados, os velhotes do costume a cercar peças de dominó, pontos negros cruzados em marfim falsificado, risos e contrários inesperados no fluir do jogo. Perdes-te neles todos enquanto o silêncio vos separa. Sentas-te ao pedido dela. Quer falar sobre a distância daquela troca de palavras, sobre (ainda) qualquer coisa que não estimas. Querias responder-lhe num costume de abraço mas, imóvel, esperas (e nessa espera, aquela avó a ler o mesmo livro que leste ontem).
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Quinta-feira, Maio 14, 2009
Terça-feira, Maio 12, 2009
de olhar estendido
Passo pelo tempo nestas esculturas de milénios. As paredes que ainda sobram, as desmedidas colunas, o obelisco possível no centro do templo. Nisto tudo uma camada quente de areia e memória dispersa. O Antigo Egipto vê-nos morrer, uma geração após outra, cada único presente refeito em passado, cada palavra destituída, cada sonho perdido. E eu ele nós turistas de cem línguas diferentes em semana apertada a observar-te, a fingir nesta passagem que te entendemos (saímos de Karnak para a estrada destes dias e na parede, numa fina sombra do sol de almoço, a criança um rapaz seis sete anos indiferente à gloriosa história na qual se apoia e de olhar estendido à minha mão).
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Quinta-feira, Maio 07, 2009
Terça-feira, Maio 05, 2009
num degrau a ver este rio passar
São gritos a envolver a madrugada, são gente que de iguais têm tudo, lágrimas por chorar, promessas por cumprir, gestos por dar. É chegada a guerra, o sangue ao branco da neve, o sufocante rumor da artilharia. São as ruas a esvaziar a cidade, cem mil sonhos desfeitos a passar por portas e janelas já fechadas. É o carregar de dinheiro comida roupa caixas grandes pequenas, um velho e o seu quadro (de uma mulher e um piano desbotados na chuva que desce), outro sentado num degrau a ver este rio passar e ali um cão perdido. É no cais onde todos param e esperam. Ela fala como se fosse um até logo mas nos teus olhos de soldado o barco que chega e na tua mão a mão dela.
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Quinta-feira, Abril 30, 2009
Terça-feira, Abril 28, 2009
rasgar
A noite pousou há muito e nela a lua nova, a silhueta cansada dos prédios sujos da cidade, os sons que restam das casas cheias. Um pontilhado de luz é o que sobra das horas e numa varanda outro como eu (creio) ambos neste calor de dia derramado, neste tremor do relógio ainda por ver, nesta espera de olhar a estrada que se perde após a curva, na partilha de uma falta (das notícias que não dás, desse respeito erigido ou então - esquece o resto - do teu sorriso). Oiço o elevador. Não a vi na rua, um desvio de olhar talvez, um fechar de olhos na lembrança do primeiro beijo e na promessa daquele abraço, uma distracção qualquer e agora a fechadura a abrir-se em ti. Não dizes nada, quase não olhas a varanda onde me congelo e avanças convicta para o quarto a rasgar-me a memória nesse silêncio.
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Quinta-feira, Abril 23, 2009
Terça-feira, Abril 21, 2009
e interessa-te, essa resposta que ensaias?
Os cotovelos no balcão numa espera inesperada. Uma da manhã, o silêncio da noite que entra pela janela e o sono, apesar de agora começado o turno. No papel que desenhas traços a tua mão, no relógio a inquietude, no velho que dorme na segunda fila os teus olhos. Vês-lhe os punhos magros de uma qualquer fome, o casaco rasgado de anos atrás ainda trazido. Vês-lhe o tempo fugir como te foge, o mundo que passa fora desta sala de espera. Quantos velhos como este viste entrar? Menos dos que viste sair mas quantos? (e interessa-te, essa resposta que ensaias?). A morte rodeia-vos (ao hospital, aos doentes, a vocês que o fazem). A esperança também, e o sorrir e a alegria da cura, mas estes são de memória gasta no normal dos dias seguintes. De madrugada vêm lavar-vos paredes, o chão, as portas e o branco que os reveste. Só que não há nada que não se macule.
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Quinta-feira, Abril 16, 2009
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