e toda uma história que adivinho naquelas lágrimas presas
Um relógio branco na parede creme a ditar-nos horas. Uma mesa ao centro, sete cadeiras e um sofá verde roçado por quantos braços passados nesta sala de espera. Somos seis na esperança de uma consulta já de si atrasada, seis desconfortos expostos, corpos de um vigor adiado ou perdido, seis expectativas de um resolver de problema, esperanças de saúde que a porta fechada de um senhor doutor feito em anos de faculdade e hospital prenuncia. Ao meu lado, uma senhora a escolher companhia com os dedos nas revistas, entre juras impressas a cor e em imagens de sonho. Um casal novo, ele de olhar distante a transpor as paredes deste hospital, ela a afagar-lhe o cabelo e toda uma história que adivinho naquelas lágrimas presas. Um velho que troteia para si uma melodia esquecida (e de um bolso o tirar do lenço avermelhado sujo do seu sangue onde noto as curvas de um LV estampado). Ainda um outro homem, tão novo quanto eu de olhos fechados nos minutos que não passam, um livro entre as pernas fechadas, as mãos dadas, a lombada está-me oposta e não sei do que se trata (e, por instantes, eu apenas no puzzle daquele título por saber). Perto das revistas, na mesma mesa, um cinzeiro azul (um desafio do sinal descolado que proíbe fumar) e nele um remoinho de pastilhas, uma beata e o repositório dos terrores por nós e em silêncio partilhados.
Soslaio
Olhares Palavras Momentos
quinta-feira, outubro 28, 2010
terça-feira, outubro 26, 2010
quinta-feira, outubro 21, 2010
uma cadeira velha, vermelha,
Fecho o livro terminado. Foram duas horas de distância, longe da areia, da água e da multidão que nos vizinha. Como no fim de uma viagem olho em redor e tudo se move, jogos de raquete, corridas e passeios, um cão e uma bola juntos, crianças que fogem do chegar quebrado das ondas, um mar de gente neste mar quente de meio-dia. Ao nosso lado, um homem (50 anos e uma cadeira velha, vermelha, com ele em cima) a ver o que sobra do verdadeiro mar, no barco de carga que para sul se afasta (talvez este homem não esteja aqui mas numa qualquer memória revisitada, como outros tantos - eu - que se vêm trazidos à praia por compromissos que não os nossos), e nesse olhar a mulher na revista de pessoas bonitas a fazer comentários que ninguém responde. Sobre esta luz que quase me cega estendo o braço à procura da mão dela e toco-lhe. Ela aperta-me os dedos em resposta e sem palavras diz-me estar o mundo ainda inteiro.
Por João Neto às 09:04 Labels: silencios 0 comentário(s)
terça-feira, outubro 19, 2010
quinta-feira, outubro 14, 2010
Dorme quem nele trabalhou para o matar
O incêndio passou. Dorme quem nele trabalhou para o matar. Um sono de cansaço justo (por um dia não há olhos no tecto, por entre o escuro, a pensar em contas, filhos, neste outro ao lado, em nós de vida) e do barulho ensurdecedor resta agora o calor de verão abafado, um manto de fuligem e um deserto de sonhos desfeitos. As aldeias também se comem e esta ficou a metade, as paredes sozinhas, testemunhas de passado, o cheiro a carne dos animais presos à surpresa do desastre e, lentos, os habitantes voltam, hoje esquecidos de ontem, num choque num eco por vir ainda. É um sentir de desperdício esta falta de cor, esta morte pintada por entre pedras de serra.
Por João Neto às 09:02 Labels: silencios 0 comentário(s)
terça-feira, outubro 12, 2010
quinta-feira, outubro 07, 2010
Ela
São os anos a falar-te, são discussões e risos, ódios contidos, impulsos largados, é um construir de rugas, de primeiros erros, de sonhos queimados que te desfoca a vida. Já agarraste o pulso desta terra que pisas? Não me respondas. Vai um dia, num caminho a pé feito, de sol ou chuva tanto faz, mas fá-lo pelo meio. Não percorras as estradas que facilitam o caminho, não te faças surdo ao ruído branco do mundo, não continues até que, parado, sentires o que há para ver. E depois avança até que algo ou alguém te diga (e, de cada vez, serás sempre tu projectado) para te deteres novamente. Uma escada nestas paragens e arranques, um percurso nesta órbita de pasmos. E no contacto das coisas a abertura de portas que, para poder chegar cansados e a casa na noite seguinte, mantemos a custo fechadas.
Por João Neto às 09:00 Labels: silencios 0 comentário(s)
terça-feira, outubro 05, 2010
quinta-feira, setembro 30, 2010
Ele
Sabes o que quero? Sabes mesmo de onde retiro este possível? Quão complicada é a rede que tecemos, este ritmo de vida composto em fios de semanas iguais, entre silêncios e gestos cúmplices que a partilha nos extrai e expõe. Desejo seguir a linha que resgatasse um motivo, a definição segura de onde estamos, para onde vamos, do sentido das coisas que fazemos. Mas depois confundo, ou porque é difícil seguir o raciocínio até ao seu fim (e a realidade faz muito barulho) ou porque parte desse passado que nos fez nunca ocorreu. São procissões de imagens que queria ter visto e estão, sem remédio, misturadas aos momentos que nos foram dados, um filamento de anseios nunca experimentados. E o resto, ecos, sombras, imperfeições a custo feitas. A confiança que tenho no mundo não é maior que tu nas minhas costas à beira do abismo. Resta-nos pouco de valor, e disso raramente nos lembramos.
Por João Neto às 08:57 Labels: silencios 0 comentário(s)
terça-feira, setembro 28, 2010
quinta-feira, setembro 23, 2010
de mão dada num guarda-chuva
Dois dias de chuva para atravessar molhada a cidade. No autocarro, os lugares ocupados, eu de pé a acompanhar balanços. É de manhã, a madrugada passou há horas e ainda assim o olhar partilhado de quem se levanta. À minha volta pequenos afazeres, pequenos nadas para passar a viagem (uma rapariga e uma caneta a rabiscar a apagar vazios no jornal, uma mulher mais velha de capuz posto encostada ao vidro a querer dormitar, um casal de velhotes de mão dada num guarda-chuva, dois miúdos a dedilhar no telemóvel e o resto das pessoas nesse nada que não transponho), e o tempo passa perdido em curvas e rectas riscadas de branco e amarelo, nas paragens de sempre, nos fluxos de carne e roupa que obedecem às portas. Horas que do silêncio pouco fica por dizer.
Por João Neto às 08:53 Labels: silencios 0 comentário(s)
quinta-feira, junho 24, 2010
um rio, um mar esta noite
O comboio a acordar do torpor metálico e tu sentado ainda de saco verde entre as pernas. Esta mulher tua no teu braço, a segurar o corpo e tu já na promessa da distância, na esperança triste de um futuro melhor, na vida que não queres perder sem combate mas aquelas mãos aqueles dedos em ti e tu partido em dois (sentes-te metade, a outra deixaste nesta noite nos lençóis novos que ela pôs, nas toalhas limpas e no banho que pela primeira vez te deu, entre o silêncio deixado de lágrimas e um rio, um mar esta noite) e o apito que te reclama a presença. O que dizer neste termo que vos resta? Entre tanta coisa forçada qual o espaço que vos sobra? Outros iguais a subir as escadas, a entrar sozinhos, as mãos no vidro e o dever de os seguir (à tua volta a mesma cena em outras caras, outros braços, outros sulcos cavados). Não te chegam as palavras e agora os lábios dela nos teus. Esse adeus disfarçado de beijo.
Por João Neto às 11:12 Labels: silencios 0 comentário(s)
terça-feira, junho 22, 2010
quinta-feira, junho 17, 2010
que rosto teu nessas histórias?
Arranjas na toalha a procissão de pratos, talheres e acessórios outros para o almoço que começa já atrasado. Nesta casa emprestada, neste lado de monte apontado a sul sobre o verão que vos recebe, tu à espera que ele saia do escritório. De tanto amontoar folhas (na velha máquina de escrever, lenta, uma companhia, um sentimento preso que o recusa à compra de computador, quarenta anos a premir nela as mesmas vinte seis letras gastas) de tanto erigir esse ritmo diário que o deixe livre do mundo que lhe vai lá dentro, que tamanho ficaste tu? que sobra nas obras que de ano a ano saem em alegrias literárias de desconhecidos? que rosto teu nessas histórias? E abres a porta para o chamar e naquela quietude ele a sorrir-te entre uma página e os teus olhos.
Por João Neto às 11:10 Labels: silencios 0 comentário(s)
terça-feira, junho 15, 2010
quinta-feira, junho 10, 2010
um pouco desse riso,
Em redor uma floresta de metal a encerrar caras. Por entre os vidros outros como eu à espera. Alguém que se ri sozinho (naquele riso a minha ignorância da sua origem, o ritmo dos dias e um pouco de inveja do meu desanimo repetido deste trânsito parado) e penso do que rirá ele, se de um programa qualquer de rádio, se de uma voz ao telefone, se de uma boa lembrança da noite ou do ano passado. No meu carro agora muda a música e viro-me obediente para o outro lado. Uma mulher que olha para os sinais, para a rua, para o mundo de pessoas que nos define e naquele olhar um qualquer de triste, um também não saber meu dessa ausência de riso, tão abundante no homem que, na minha nuca, imagino ainda a rir dessa graça secreta e silenciosa que não ouvirei. Queria dar-lhe um pouco desse riso, ser ponte e justiça neste momento condenado de semáforo. E sobre nós vagas de pernas cruzadas na passadeira diante da luz verde de um boneco. Depois a sua troca com o vermelho e somos, novamente e apenas, os que seguem em frente.
Por João Neto às 11:09 Labels: silencios 0 comentário(s)
terça-feira, junho 08, 2010
quinta-feira, junho 03, 2010
um torpor que também a ti te guia os braços
De mão em mão entregas pedaços de papel impresso com notícias de ontem. Nessas mãos abertas um testemunho passado, um ou outro olhar em ti mas para a maioria és um invisível, um algo que se apaga nessa entrega, um rosto igual entre mil esquecidos. É inverno e na quase chuva da manhã espalhas centenas de jornais iguais, grátis, lidos na pressa do caminho, deitados na rua a sujar de tinta e papel a cidade. Um regurgitar de carros e pessoas esta avenida, um cruzar de apatias, um torpor que também a ti te guia os braços, levantados, nesse suportar cansado de mais um dia. E, sem qualquer palavra dita, lá vão todos a afastar-se, a derramar-se desse centro, por ínfimo que seja, que és tu no teu emprego.
Por João Neto às 11:07 Labels: silencios 0 comentário(s)
terça-feira, junho 01, 2010
quinta-feira, maio 27, 2010
São rostos limpos de cara aqueles que defrontas
A casa sozinha para lá da sala onde te encontras. O frio da noite a cercar o calor do teu corpo deitado na sala. Todos esses papéis são dossiers a contar os cinzentos dos dias, são vidas catalogadas em processos do teu serviço, defesas e argumentos que afastam nomes, abstracções legais e decretos de decretos. São rostos limpos de cara aqueles que defrontas ainda acordada. A TV nas notícias repetida a cada meia-hora, outras vozes que misturam as tuas e fechas os olhos de sono, horas perdidas de esforço nesse navegar que escolheste nesse mar do insondável. Ainda estás vestida de trabalho, ainda na preocupação que não te permites largar marcada nessa roupa que não despes (menos os sapatos, deixados à porta no tapete desbotado que trouxeste dos teus pais, a gastar-se em cada chegada tua, assim como um pouco menos de ti que entra, cada vez que chegas sozinha sempre à espera de ninguém).
Por João Neto às 09:05 Labels: silencios 0 comentário(s)
terça-feira, maio 25, 2010
quinta-feira, maio 20, 2010
é sempre de alcatrão a estrada que te arrasta
Nesta monotonia em pacotes de 24 horas tu sentado de novo no autocarro. No caminho igual os mesmos carros, as mesmas pessoas nos trilhos cruzados de vida, o mesmo céu ou as mesmas nuvens. É sempre água que chove, é sempre de alcatrão a estrada que te arrasta, é sempre o mundo que roda a levar-te. Na paragem do costume a multidão que entra e nos mesmos instantes tudo se enche num apertão de gente, de braços levantados em distâncias de pessoas. As travagens que se sucedem (e nesse balançar não te lembras se vais para casa ou para o emprego tal é o normal solitário do teu costume, indiferenciado, entre as folhas que ordenas na repartição e as outras a custo viradas nas viagens de romance) e quando a multidão sai para entrar no barco que as carrega ao rio, nesse espaço vazio ou quase, reparas agora no sorriso antes escondido da mulher que te pergunta, por exemplo, as horas.
Por João Neto às 11:03 Labels: silencios 0 comentário(s)
terça-feira, maio 18, 2010
quinta-feira, maio 13, 2010
as únicas palavras que ainda fala aos outros
Bates com os dedos no copo vazio, a televisão nas vozes surdas misturadas na gordura das paredes, na humidade da noite, nos risos grunhidos das outras mesas. O balcão um mar de álcool que se esvai, os dos costume nos cantos do costume, tudo um receber de perda, um querer de nada (mas o relógio avança, e a mulher do dono ainda a servir, naqueles braços uma vontade perdida, um desistir de anos já passados e só o eventual de um sorriso quando lhe passa na memória a filha na faculdade em Coimbra, as únicas palavras que ainda fala aos outros). É com cerveja que lavas o resto e em ti, quando te levantas, um desbalanço, um olhar sem centro, uma vontade de resolver o mundo aos murros e vocês todos juntos nesta aldeia que morre. Faz-se um cemitério com pouca coisa.
Por João Neto às 11:02 Labels: silencios 0 comentário(s)
terça-feira, maio 11, 2010
sexta-feira, maio 07, 2010
na tua voz ao telefone, tudo é distância
Deixas recados, pedaços de ti escritos no meu caminho. Para ti são portas abertas de um novo tentar. Para mim, ecos, promessas de retorno a um passado desvalido. Nas tuas palavras, na tua voz ao telefone, tudo é distância, tudo é revisto, retentado, tudo sombras de um quarto escuro em que entrámos os dois mas eu saí. E nesse ralo que fizeste (ou fizemos, tanto me faz a gestão das culpas) tudo se transforma em cobrança, em cheques brancos sem validade (e como desespera essa repetição). Um sentimento construído esta escolha de indiferença ao forçar-me a não te ver. Um sentimento construído porque tudo o resto destruído em vagas. Não se vive assim, sem um mínimo de paredes.
Por João Neto às 11:00 Labels: silencios 0 comentário(s)
quarta-feira, maio 05, 2010
quinta-feira, março 25, 2010
tudo lixo e nesse lixo tu a descê-lo
Desces as escadas, a sujidade naqueles degraus é a mesma do prédio que as encerra, tudo podre tudo lixo e nesse lixo tu a descê-lo. O cão da rua, o rafeiro que há anos se acomoda na misericórdia do bairro (a mesma que te alimenta pela tua irmã, tão sozinha como tu, tão fechada nessas paredes de papel rasgado, vividas inteiras pelos pais, vossos, mortos e esquecidos quase após um ano, tudo vendido o que prestava, tudo o resto detritos que não se distinguem e a tua irmã, monumento vivo desse conjunto de momentos dispersos a que chamam passado, a dar-te ainda almoço jantar cama uma pessoa para ofenderes) e o cão na tua frente, olhos nos teus à espera do mesmo que tu e que não sabes o que seja, e nesses olhos um espelho no qual, cheio de uma raiva pútrida de tão grande que sempre incontida, arremessas um pontapé para que te saias da frente.
Por João Neto às 08:07 Labels: silencios 0 comentário(s)
terça-feira, março 23, 2010
quinta-feira, março 18, 2010
E a mão tua que me segura um principio de aventura
Qualquer coisa me adivinha o teu rosto lado a lado que estamos. Neste silêncio das ruas que se banham em luz, tu e o dia que nos recebe, o fascínio desse momento que se quer perfeito. E a mão tua que me segura um principio de aventura, de perigo e sorte e de mil palavras outras. E o teu passo no meu passo, juntos os pés a pisar cidades, a deixar a noite num saciar de fome que nos invade. E já as ruas nesse recomeço são luzes que se acendem, vozes nas portas que se abrem, pessoas a iniciar dias (e uma velha na varanda a apanhar roupa seca do vento e na frente a escoar-se todo um reflexo de rio). Por um momento, o resto, o imenso do que não somos num canto irrisório porque a tua boca em mim num primeiro beijo.
Por João Neto às 09:44 Labels: silencios 0 comentário(s)
terça-feira, março 16, 2010
quinta-feira, março 11, 2010
E nesse silêncio oiço outras coisas
Essa mão no meu ombro é um mundo que me toma, esses dedos que me apertam, essa presença tua, perto, quente, um tempo nosso na solidão do quarto. E os teus lábios na minha nuca num beijo que queria estendido, um parar de horas neste agora ansiado. E tu sem nada dizeres, sem palavras que não troques por gestos, sem gramática, verbos ou artigos que não possas fazer num sorriso que adivinho nas minhas costas. E nesse silêncio oiço coisas outras, oiço o zumbir amarelo do candeeiro da tua tia emigrada, oiço o tic-tac do relógio velho, oiço, lá fora (e tudo parece lá fora quando fazes o que agora fazes), um carro que passa numa poça de chuva, um ou dois gotejares de varanda, uma voz que chama alguém e um pulsar de coração, meu, que não sei já de quem é.
Por João Neto às 06:40 Labels: silencios 0 comentário(s)
terça-feira, março 09, 2010
quinta-feira, março 04, 2010
e quando, lá em cima, se calam as gentes
Esta é outra Lisboa que me atravessa. Esta é um encruzilhar de ruas e avenidas que não conhecia mas onde também se murcha em coágulos de vida. Um casal discute no andar de cima e o prédio, a ceder na ruína de um século passado, a ouvi-los por inteiro. Somos todos, neste momento de noite onde estamos, aqueles gritos, aquelas mesmas acusações de ontem, somos o chorar das crianças, o ranger da madeira e os vidros a chocar em paredes (há sempre algo atirado, há sempre uma trajectória cortada, um baque num tremor, num anunciar de desastre eminente) e quando, lá em cima, se calam as gentes, o peso sobrado no escuro do tecto, o luar desfiado de persiana, a TV ligada a atravessar paredes, o pouco de Lisboa lá fora, tudo manchado em memórias que não se limpam.
Por João Neto às 09:39 Labels: silencios 0 comentário(s)
terça-feira, março 02, 2010
quinta-feira, fevereiro 25, 2010
outros passares despercebidos
Nesse teu passo pesado cada degrau um episódio, um momento de fim se caíres, um desafio à velhice, tua, que rejeitas. E chegando abaixo uma torrente de outros que vão e vêm no dia que termina, um mural de rostos fechados que não conheces (tanta gente numa cidade, tanto mistério encerrado neste milhão de vidas). Avanças como podes no contra-trânsito de trabalhar nos subúrbios, apanhar a tua linha azul e escapar num buraco mais adiante. Outros rostos outros corpos roçados outros passares despercebidos e tu nessa milésima viagem repetida a conheceres já os bancos, os defeitos das paredes, os tempos que te levam de A a B, até algumas pessoas de tanto partilhar distâncias mas sem saberes nomes de ninguém, sem saberes nada de importante excepto que, quando parares, quando saíres destes dias, serás tanto como uma pedra a menos na calçada.
Por João Neto às 07:17 Labels: silencios 0 comentário(s)
terça-feira, fevereiro 23, 2010
quinta-feira, fevereiro 18, 2010
essa força ofuscada
Deitado nesta cama um menino a dormir. Eu que passava, detido no braço negro de feridas vislumbradas no branco das ligaduras. Ainda no braço um canal transparente a terminar ao alto numa cascata em câmara lenta. E naquele plac plac de soro, imagino-lhe a noite, o pesadelo encarnado desta criança que o irá reviver demasiadas vezes. Foi o pai (disse-me, depois, a enfermeira, e nela uns olhos tristes de tanto afastar dias nestes quartos), entre o álcool e uma qualquer discussão provocada, a violência cega, essa força ofuscada contra a impotência da infância. No outro lado, noutra cama, outro menino a dormir e uma mãe acordada, mão esquerda dada naquelas mãos e na outra, apertado, um urso de peluche, a velar-lhe o sono de olhos secos e, imagino, com a boca presa num engulho de vida.
Por João Neto às 09:35 Labels: silencios 0 comentário(s)
terça-feira, fevereiro 16, 2010
quinta-feira, fevereiro 11, 2010
nunca me falaste desse minuto de silêncio
Eis que chegas a casa, o barulho das chaves no cinzeiro limpo da entrada, o casaco no cabide, o chapéu-de-chuva sacudido e aberto a indicar-te a passagem. Uma torneira aberta e fechada, os sapatos descalçados, o intervalo que sempre demoras sentado na cama (nunca me falaste desse minuto de silêncio que nos impões, esse momento que não deslindo, essa resignação que imagino e uma arena de medos que se levanta cada vez que te sentas para calçar os chinelos). Depois outra vez tu no corredor, na minha direcção, um sorriso treinado, moldado nos anos, o beijo na testa, a nossa troca de frases do costume (onde estamos todos bem, onde tudo está normal no trabalho, onde o tempo podia estar pior e o trânsito melhor). Depois as revistas, o semanário relido, o jantar (e o quanto está boa a comida, o quanto de boa cozinheira os teus lábios nessa simpatia distante me acusam) e essa partilha que fazemos da sala, disjunta, separada, como se fossemos duas casas, dois trajectos. E após a cozinha arrumada, a TV aberta às telenovelas, às vidas recriadas e recicladas daquela gente famosa, aos concursos (e nas respostas, o único momento em que somos casal, um querer para o mesmo lado) e no fim, na cama, sem dizeres boa noite (apenas o monótono beijo que assinala esta nossa existência), virado para a parede, permaneces calado na companhia da tua insónia.
Por João Neto às 13:32 Labels: silencios 0 comentário(s)
terça-feira, fevereiro 09, 2010
quinta-feira, fevereiro 04, 2010
um anseio que te invade há anos
O tapete mal posto e tu levantado nesse acerto. A parede branca e a fotografia na moldura torta que não te deixam descansar. As gotas da torneira na cozinha, o som da falta de óleo nessas portas abertas, o rosto de um anseio que te invade há anos. O que lá, na rua, te assusta? O que te prende entre as paredes mil vezes cansadas desta casa? Qual o mal o nome dessa sujeição que te faz menos pessoa do que foste? O que do mundo que a televisão da sala mostra é meritório da tua ausência? Contra o quê perdes tu? Como explicar à família que resta ainda que o complicado não é culpa tua, que o frio desse olhar é de fora, que as palavras por dizer são preço carregado e não angústia? Como fazer-lhes ver uma doença que se faz carne?
Por João Neto às 09:31 Labels: silencios 0 comentário(s)
terça-feira, fevereiro 02, 2010
quinta-feira, janeiro 28, 2010
aqueles ramos como um relâmpago negro
Chegamos e saímos do carro. Atrás de nós a estrada e uma montanha a prometer o frio da noite. A casa dos teus pais, dizes mas não te respondo (ou respondo, sim, porque no meu silêncio também o sorriso da minha mão a apertar a tua). De frente à casa, no jardim, a separar-nos uma árvore no Outono, aqueles ramos como um relâmpago negro a cortar fixo o céu. Nenhuma nuvem, nenhum animal, (todos mortos pelos anos, todos figuras difusas a cruzar-me o passado, nem os ecos do ladrar, da passarada, do gato que por cair da chaminé não mexia as patas de trás, naquele arrasto sem miar a que se reduziu, e eu, o Jorge e o Luís de quando em quando, parados, a vê-lo atravessar a sala e nós todos calados como se, pelos nossos olhos, uma qualquer verdade de adulto seguisse o gato) a fechadura perra, o corredor frio, o pó e as teias nos cantos e ninguém que nos receba. Somos os dois neste pequeno mundo só aberto duas vezes por ano, fechado no resto com demasiadas das minhas memórias.
Por João Neto às 13:28 Labels: silencios 0 comentário(s)
terça-feira, janeiro 26, 2010
quinta-feira, janeiro 21, 2010
na casa do meu pai a ver-me crescer
Nunca eu nesta estrada. Nunca eu nos passos que me levem a ti. Nunca eu outra vez. Os gestos que repetes, as ameaças (ou promessas talvez, no limite não se distinguem) tecidas em novelos que já não conheço, tudo reciclado e no entanto nada muda nesses mesmos gritos, nessa porta sempre fechada em explosão, no contar mesquinho dos silêncios demorados, na contabilidade aflitiva do que foi dito (e não dito, pois não é só as respostas que não queres ouvir, são as perguntas que não respondo, as acusações que não contesto) e o que queres que fique? o que achas que sobra a este napalm diário que são as discussões que nos despem (a mim, a ti quero crer, ao constrangimento da velha Inácia a fechar a porta e nós a entrar, ou com ela no elevador, trinta anos na casa do meu pai a ver-me crescer e agora isto, o que lhe devo? perguntavas, e eu não sabia - ou não queria - dizer-te o quanto de passado esta querida velha me resgata).
Por João Neto às 13:27 Labels: silencios 0 comentário(s)
terça-feira, janeiro 19, 2010
quinta-feira, janeiro 14, 2010
ela fechada outra vez esta noite
O volante seguro nas mãos, o rádio ligado (um programa local qualquer, antes vozes iradas agora música que não conheces), uma fresta deixada de janela, o vento apertado, o som dos insectos. A linha branca a alimentar a estrada, o passar de casas juntas, dois olhos de gato a reflectir a luz que do carro emana e no céu negro um pontilhar de estrelas. Avanças decidido mesmo que não saibas para onde. Ao teu lado ela, ela zangada pela razão que esqueceste, ela na ausência de ti, ela fechada outra vez esta noite (e neste atravessar cego, um separar de carro em dois, tu na serra parado, no molhado da terra mexida, a vê-la ir-se levada pela curva), ela nem sequer preocupada que adormeças.
Por João Neto às 13:25 Labels: silencios 0 comentário(s)
segunda-feira, janeiro 11, 2010
terça-feira, dezembro 08, 2009
todos nós histórias
Eu nesta festa fechado. Vejo um casal, ela a dizer-lhe algo, os olhos dele a afastarem-se numa outra que passa mas aquela mão de mulher a segurar-lhe o corpo. Vejo dois dedos e um cigarro a esvair-se em fumo, um copo de vinho tinto já bebido sobre o barulho da sala e é como se nenhum de nós falasse. Vejo um braço apoiado na parede e nele, como uma estátua, um homem a ouvir um telefone. Alguém se levanta e deixa uma mulher sentada, triste, sozinha entre caras outras na entrada da casa de banho (e um outro homem se lhe dirige mas ela calada, num silêncio cansado a dizer não com a cabeça). E sobre a alcatifa vermelha todos nós, todos ilhas entre pontes de palavras, todos nós histórias, desejos detidos.
Por João Neto às 12:07 Labels: silencios 0 comentário(s)