Olhares Palavras Momentos

domingo, dezembro 06, 2009


sexta-feira, dezembro 04, 2009

são Romas, Zuriques

O som dos que vão e vêm, passos e sacos carregados no ambiente estável de aeroporto. Divides-te entre o relógio e o placar que reporta os aviões chegados, o futuro das próximas horas descrito em números, letras, nomes de cidades, são Romas, Zuriques, Luandas, Rios de Janeiro a cruzarem o ar para fazer-se à pista. Tão comum este regurgitar de pessoas, de destinos opacos embrulhados em malas (verdes, vermelhas, azuis de tamanhos diversos, um aviso essa imagem fácil de diferença que nos previne a mistura. Quão mais difícil é adivinhar os tons nossos, os de dentro?) e tu nelas a deixá-las passar, indiferente aos rostos enquanto não vem o dela. Os minutos passam, o placar muda, eis que chegam em filas iguais às outras, mas aquele chapéu amarelo que se adivinha, que disse que traria e que a separa e ilumina. Levantas-te e ela junto a ti parada, pela primeira vez não separados por telefone ou entre letras de teclado. Não dizes nada porque não consegues, não dizes nada porque tudo em ti num primeiro abraço.

segunda-feira, novembro 30, 2009

sábado, novembro 28, 2009

quanto de aflição é tempo que vos resta?

No fundo da cama, nesse canto que não querias ter caído. A casa as paredes mesmo as portas passarão sem ti, alguém outro pintará o muro do branco vivo que nos anos se perde, outra voz receberá as visitas, neste quarto e noutra cama um casal talvez novo. A casa dividida no ar extinto de janela fechada, na música querida que deixou de tocar, no silêncio incomodado desse revezar de filhos. Devagar o mundo se fez pesado nessa tua fraqueza, nesse desquerer de mais anos, nesse rosto frisado que te reveste. Na entrada, em frente, o teu amor encostado (quantos beijos naquele ombro?, quantos segredos esquecidos juntos?, quanto de aflição é tempo que vos resta?) de olhar vivo, como uma lágrima esgotada a dizer algo que não entendes. Querias contar-lhe uma memória vossa que aos dois fizesse rir mas o riso não vem e apressa a madrugada. Já é tarde, tens sono.

segunda-feira, novembro 23, 2009

sábado, novembro 21, 2009

e naqueles rostos

As rodas do autocarro escondem os buracos da estrada que tão bem conheces. Recomeça tudo nesta nova madrugada, os candeeiros ainda acesos, as ruas de carros detidos, as pessoas já sentadas na paragem. Pouco passa das cinco horas e naqueles rostos o cansaço de ontem, o lutar do mês, a miséria de cada vida. Ninguém conversa, não lhes vês os olhos nem as mãos. Estão fechados no frio da noite e levantados agora à resposta da tua chegada. Páras e abrem-se as portas ao bairro. Conheces as caras de quase todos que entram, nomes e mais nomes desfilados no silêncio da manhã, a Emília na sua viagem de três horas e quatro transportes que agora começa, os dois Zés da enorme construção no outro lado da cidade, o Luís ajudante de padeiro que já foi advogado, a Ana e o filho diabético (qual o nome do menino? não te lembras e isso envergonha-te e cala-te, estupidamente sabes bem, pois por isso e só por isso não respondes ao sorriso por aparar nos olhos dela).

segunda-feira, novembro 16, 2009

sábado, novembro 14, 2009

um bloco branco que imagino guardado

Eu sentado e um amigo. A dividir-nos quatro copos, dois pratos, muitos talheres, um rasgo no canto da toalha a ver-se pelo papel que a protege. Ele nas opções do menu e eu de olhos em volta esquecido da promessa de fome que o costume diário propõe. É cedo, o restaurante está vazio, as mesas a separar cadeiras, o aquário de lagostas que borbulha, o empregado que nos sentou a afastar-se e no bolso uma caneta e um bloco branco que imagino guardado. Passou agora por uma quase menina, uma mulher de Leste de queixo segurado pelas mãos no balcão que, na espera dessa confusão que se adivinha, toda ela naqueles olhos a olhar para fora, não sei se para o céu, se para a demora dos anos, se da família que deixou.

segunda-feira, novembro 09, 2009

sábado, novembro 07, 2009

e a mãe num sorriso tentado

Esta praceta chegada entre apertadas ruas de Lisboa. Nela uma senhora sentada, rabo-de-cavalo sobre o ombro esquerdo, concentrada entre pombos e a mão indecisa nas palavras cruzadas. A fonte esgotada de água verde, dois pardais a beber-lhe e um menino que os assusta (naqueles pequenos braços agitados quantas promessas futuras, quantas mentiras verdades momentos respostas, quantos colos por sustentar?) Outra senhora, meio saco branco de mercearia e uma bolsa gasta bege aberta num fecho estragado a brincar às palavras com um bebé e a mãe num sorriso tentado sobre as lágrimas que não secaram. Nenhuma delas fala e já se afastam. E tantas folhas neste verão caídas! Carros que passam ao largo (não os oiço) e um telemóvel que estraga o feitiço deste silêncio que discreto se punha em mim.

segunda-feira, novembro 02, 2009

sábado, outubro 31, 2009

que num sorriso a dizer-lhe não

Na rua cortada pelo fugir dos carros dois rios de gente à espera. No anónimo de cada cara uma vida, um desfilar de crónicas que não saberei contar. Em cada ruga um princípio de fim, em cada rasgo um talvez que nos separa. Os sinais trocam verdes e vermelhos e eis que os rios acordam e se movem um contra o outro, ladeando-se, numa torrente junta que se divide pelo metro, nos autocarros, num ou outro táxi, num caminho a pé pelas escadas (que nunca subi e que só agora observo, até ontem um vazio, um buraco de memória aqueles degraus). Um café aberto na rua, três senhoras, um vendedor de lotaria, parados naquele cheiro quente, num acordar de inverno que não viu sol ainda. Ele a pousar a chávena, a tentar vender uma terminação à senhora de casaco verde que num sorriso a dizer-lhe não. Depois, como por acordo os quatro a levantar sacos, a arrumar carteiras, a irem-se separados. Ficaram as mãos de quem arruma o balcão e uns olhos a ver passar a praça.

domingo, outubro 25, 2009

sexta-feira, outubro 23, 2009

É nesse corpo de papel branco

Em cada dia há um livro que nos diz ao ouvido 'Espero-te' (e é tão difícil ouvi-lo e seguir-lhe a ordem) ou 'Escuta-me' como se dissesse 'Escreve-me'. É num corpo de papel branco que a grafite ou a tinta tocam com violência com erotismo com o desespero das palavras retidas. É no virtual de um ecrã de teclas reflectidas nas mãos tanto nossas como deles. É no som de uma fita que me ouve nesse momento mágico de geração. E todos os que ficam por atender, todos os ceifados na nossa desistência, os inacabados pelo efeito da morte ou as versões insatisfeitas do nosso desejo formam uma imensa biblioteca dos livros que poderiam ter sido escritos. É a parte invisível, intangível e encantada da biblioteca de Babel. Os dias por imprimir estão lá, os nossos sonhos, o que não dissemos ainda ou nunca diremos, o silêncio intacto a que temos direito.

sábado, outubro 17, 2009

quinta-feira, outubro 15, 2009

um brilho perdido na madeira deste barco

A linha do céu para sempre distante nos teus olhos. A expressão das nuvens que caem na chuva, breve, a molhar o barco. O canto da terra no voo das aves. Tudo isto alegra esses rostos fechados na noite e na pesca que vos defende. O que da apanha é mais que sustento? O que do mundo vive para lá das fronteiras da vossa vida? Fazes tempo sentado a cuidar da rede (esses nós atados juntos, essa força na multidão de cordas frágeis, estes detalhes que acarinhas, o que te dizem? Serão vocês os nós ou o espaço que os separa? o que ainda desta rede por arranjar se aprende?). As horas passam no balouço que é nome para a mansidão latente das águas e tu sem palavras, essa rede nas mãos e um brilho perdido na madeira deste barco. Nunca viste o fundo do mar mas imagina-lo como a solidão que te inunda.

quinta-feira, outubro 08, 2009

terça-feira, outubro 06, 2009

das vidas outras fachadas como a tua

Tu na porta entre braços abertos e beijos fechados, o corredor límpido de tanta luz e ao fundo, na sala, a mesa nessa disposição militar de comida que tão bem dominas. O pó limpo da idade da casa, as memórias guardadas os gemidos os gritos e o choro num canto da dispensa que ninguém quer ver. Apenas o verniz do teu sorriso, a superfície polida do obrigado que de tanto repetido pelos anos se colou a ti, essa aparência que destoa da dos teus filhos cansados das festas dos sábados, das pessoas que nada lhes dizem (e que tanto falam), das vidas outras fachadas como a tua onde te sentes bem nelas reflectida porque no final, na soma que fazes quando, já noite, te deitas ao lado da fúria calada do teu marido, o que resulta são os mil reflexos da vossa ausência.

quinta-feira, outubro 01, 2009

terça-feira, setembro 29, 2009

agora uma árvore que os tapa

A vigiar o exame já com tudo lido, passo a passo pela sala no silêncio possível destes sapatos. Tudo neles concentrado, uns no papel que escrevem, outros no enunciado ou num qualquer padrão do tecto enquanto o problema se estrutura. Deixo-me na janela com as casas velhas mais baixas que este terceiro andar. Num caminho empedrado, no corredor cortado do jardim, uma mulher num cavalo, este castanho e branco num vagar ditado, num resignar de vida; ela calada a falar-lhe por gestos de mão e pé que não entendo. Eles à minha esquerda a cruzar-me os olhos, agora uma árvore que os tapa, agora os dois à direita neste desfilar de minutos. Por fim atravessam o arco e eu de novo a olhar o céu.

sexta-feira, setembro 25, 2009

quarta-feira, setembro 23, 2009

Parado como eu, um senhor

Sábado de dispensa vazia e eu ela o carro a caminho do hipermercado. Hora de almoço a tentar diminuir a enxurrada de gente que nunca se evita, lá todo um país de carrinho de compras, uma transubstanciação de coisas que faltam, um desfilar de prateleiras a esvaziar-se em milhares de mãos neste espaço branco, um trânsito de gente que não se fala, um rosto ali que penso conhecer (mas não, passa por mim sem me ver e afinal o bigode os olhos aquele rosto diferente), o cheiro de cem queijos, de chouriços e na variedade dos legumes que diminui com os anos. E nesta babel à venda há os mesmos tapetes e roupas e livros para todos, nesta igualdade que nos confunde, neste ver o mesmo que nos desejam. Parado como eu, um senhor a guardar as compras, a segurar-se nos minutos no carrinho de grelha azul, um olhar para não sei onde, a cruzar silêncios naqueles que passam.

quinta-feira, setembro 17, 2009

terça-feira, setembro 15, 2009

Nos outros um reflexo que não entendes

Tentas falar mas a voz morre-te no perdido que estás desta turma. Nas mesas o livro de geografia que espelha o mapa mundo na brancura suja da parede. Nas mesas os lápis que não escrevem, as borrachas que não se gastam no útil que lhes dás, aquelas mãos tão longe do que dizes. São vinte nomes e pouco mais nesta distância que não percorres (tu também um nome, não uma pessoa nas suas atenções, como lhes tocar a inteligência, a atenção?), para além dos nomes o Luís no esforço diário de tentar aprender, os poemas da Maria João, o sonho acordado nos planetas da Rosa e o querer de justiça e de ser juiz do Miguel. Nos outros um reflexo que não entendes, um presente sem futuro, um desinteresse que te assola. Quase todos continuam o ruído mesmo após te calares. Como se não estivesses, como se o teu nome perdesse o corpo que nomeia, como se a aula não tivesse começado. Dás um berro e um silêncio que sabes ser breve. Uma lágrima, tua, e, sobre os muitos olhares que comparecem pela primeira vez, sais.

quinta-feira, setembro 10, 2009

terça-feira, julho 14, 2009

A minha solidão na tua

Como te queres que te chame? Maria? Que nome esse que a todas vos nomeia. Porque me ri? Por nada, por tudo, porque da estrada que nos leva não adivinhamos as curvas, porque o que tem cara de passagem é muitas vezes destino. O caminho que fiz? Maria, nem te saberia começar essa história tal são os anos e as cidades que a cobrem. Dizem-me que nasci na margem do Douro, num espelho de água que é raro ver-se agora, no ruído do rio, nessa passagem líquida que separa os homens. Há muito que não olho o Douro como devia, apenas lhe uso as pontes e não é mais, hoje, que funil de estradas. Mas depois, chegado por detrás destes montes (é verdade, donde viria o nome desta tua terra?), dos sons da lezíria neste pequeno rio que vos atravessa, o teu rosto o teu corpo em movimento e eu, eu parado a contar o tempo para te dizer olá.

quinta-feira, julho 09, 2009

terça-feira, julho 07, 2009

A tua solidão na minha

Sente-se, por favor, sente-se que eu trago alguma coisa para comer. Do que gosta? Posso tratá-lo por tu? Do que gostas então? Também eu tenho boa boca. E sim, também gosto do teu sorriso, já te vira nele durante a semana passada quando chegaste à aldeia, neste cinzento escurecido que ninguém de fora se lembra. Passam cá, quatro em quatro anos, uns carros coloridos agitados, cheios de gente que está noutro lado, a olhar o futuro que querem ver. Fora isso, nem o padre se lembraria deste canto se não lhe entretecem os olhos caídos de Helena, a menina do Conde. E vieste tu, com o teu riso determinado para arranjar a velhice desta terra, a pintar-nos nas mãos as cores do progresso, na tua ânsia de agarrar qualquer mundo que te passe na frente. Tão diferente que és desta... O que dizes? Solidão? Sim, é disso que se revestem estas casas. Vem no vento que passa, na geada que fica. Vem no silêncio velado destes ombros, meus, há muito tempo não tocados.

quinta-feira, julho 02, 2009

terça-feira, junho 30, 2009

Nas mesas alguém num gelado

Espero quinze minutos pelo cinema. Fecho o romance que trouxe e olho em volta largado que está o silêncio da minha leitura. Uma mulher eslava, bata branca a esconder-lhe a caspa e os rasgos da calça, ténis roçados e um chapéu da pala também branco e nele a ver-se dois brincos dourados (no pescoço um colar que penso ser de ouro, doutro tempo, doutra vida). Cerca-me a mesa com a esfregona, levanto os pés, obstáculos do seu serviço, e indiferente limpa o chão em redor antes de passar à mesa seguinte. As televisões penduradas, sincronizadas, desfilam mulheres perfeitas de vestidos improváveis e entre elas notícias desgarradas do mundo e da sua temperatura. Nas mesas alguém num gelado, uma mulher a engordar-se, olhos e alma num bolo de chocolate, um rapaz livro ao lado bloco e lápis e um desespero na cara pelas palavras que não saem. E eu nisto a escrevê-lo.

quinta-feira, junho 25, 2009

terça-feira, junho 23, 2009

como

O calor à vossa volta, o suor, a lama a entrar na sala, o sangue nas tuas mãos e nas mãos daquele homem desconhecido a quem entregas a vida do teu filho, nas lágrimas do teu marido ferido também por esta guerra que não entendes, nos gritos que da alma te abandonam e no desespero perdido deste tempo a passar. A enfermeira a rogar que saias e tu numa surdez presa ao chão à cegueira que adivinhas no vazio daqueles olhos que fizeste nascer e se esvai na tua impotência e perante o cenário e a batalha e os mortos lá fora. E aqueles mortos aí dentro de ti sempre a crescer em número, a dilatar a fila desses homens e mulheres e crianças (lembras-te do que parece um só dia de sol e paz e como a luz era forte e limpa então) (mas duvidas dessa memória, como pode ter sido o mundo justo depois do que vês agora?) que conheceste e que te atendem em silêncio.

quinta-feira, junho 18, 2009

terça-feira, junho 16, 2009

Lisboa enfim num começo de Outono

Eu a atravessar a rua, tempo livre para olhar o empedrado, a fina água das regas, as folhas caídas, um pombo que foge dos meus passos, Lisboa enfim num começo de Outono, num início de tarde e sem razão levanto a cabeça e no vidro do restaurante, do outro lado, uma mulher que fala a alguém mas um olhar que reconheço, igual ao de minha mãe a ver sair de casa meu pai, igual ao do meu avô a definhar pela última vez na sua cama (não me lembro de mais nada desse dia, como se naqueles olhos uma torrente um remoinho de esquecimento), à professora de matemática na sua última aula antes da operação e da reforma antecipada, ao cão da quinta, calado, a saber-se morrer, outros e outros e eu também num espelho a pensar partir. Mas avanço, o restaurante afasta-se e nisto a vê-la ainda, a perdê-la para qualquer nova frase que agora ensaia.

quinta-feira, junho 11, 2009

terça-feira, junho 09, 2009

nesse desiste que o corpo dela sustenta

A discussão começa por mais um nada e nela juntam-se os insultos típicos, o acusar de mil coisas repetidas, o expor de motivos cada dia mais estúpidos. De repente calam-se num silêncio moído, numa trégua que a nada leva mas que sempre surge. Encostam-se à janela, perto mas a olhar para fora, para o início da noite. Queres sair deste caminho mas não sabes como. E tu nessa falta de palavras, no vazio exausto desta casa e a vê-la, agora, a mexer no botão da camisa (e um pouco acima os seios dela, aquele pescoço que adoras, os lábios que te fazem esquecer tudo) a olhar para ti nesse porquê de gente, nesse interrogar pesado de tão infeliz, nesse desiste que o corpo dela sustenta. A que distância estão as vossas mãos? Quanto custa hoje a partilha de um sorriso? O que alaga ainda o espremer dos vossos anos? Não existe magia que vos resolva e a pouca esperança de crer nela foi-se há muito. Resta somente acreditar nisso.

quinta-feira, junho 04, 2009

terça-feira, junho 02, 2009

para lá da opacidade que te limita

Os rostos uns nos outros indistintos na luz que escapa ao palco. Como se não existisses, coberto que estás nessa tua personagem. Agora (agora!) quem és? Que palavras são estas que dizes? De um autor morto há décadas, traduzidas em proveito do público para lá da opacidade que te limita? Tuas? Sejam de quem for, é no estrado que se reagem, despoletando na tua companheira outras palavras (que conheces antes que ditas. Quando sobes o palco deixas de ser rede para ser órbita cumprida. Para ti o Teatro é o desvendar de um secreto, um refluir de promessas saciadas). Quem são vocês? Um casal de velhos, uma recordação perdida da mente do escritor. Ou os que cinco anos atrás aqueceram a mesma cama, as mesmas noites de partilha em imprecisos remoinhos de alegria e tristeza? Quando te calas, vês na plateia a testemunha cega que todas as sextas, na primeira fila, vos vem ouvir. Só no silêncio do palco podes ser, por segundos, tu mesmo. Os mesmos momentos em que te apagas nesta rapariga sem nome.

quinta-feira, maio 28, 2009

terça-feira, maio 26, 2009

nesse acumular que nos isola

Entro no comboio e sento-me no banco amarelo roído nas linhas e com os borrões de sujo que já conheço. Ao meu lado uma rapariga, um início de mulher a segurar com força a mala de pele roçada. Olha pela janela até que dos dedos solta um botão e retira o telemóvel. Observo aquele ecrã minúsculo a brilhar entre cores e palavras que não leio. Guarda-o e volta-o a tirar, espera algo, creio, e outra vez concentrado nele, num dedilhar aflito entre letras entaladas. Pessoas que entram e saem, prédios que desfilam na frente de um cortejo de nuvens negras. Tudo à nossa volta olhares perdidos, à espera de uma estação, do fim da viagem para um dia de trabalho, nesse acumular que nos isola. E agora um sinal pequeno no silêncio entre estações, entre o metrónomo do metal e da madeira desta linha, e logo ela nele a ler-lhe o mundo que apertado ali chega.

quinta-feira, maio 21, 2009

terça-feira, maio 19, 2009

peças de dominó

O jardim, parece, cresceu. Estás perto dela mas de mãos separadas ainda no passeio limpo há pouco, numa fresca manhã de Junho sobre o verde restado neste centro de cidade. No parque, crianças a brincar (eram duas mas junta-se uma terceira seguida por uma senhora que na cara e no cansaço daquele sorriso um talvez de avó), alguns pássaros na procura das migalhas de pequenos-almoços passados, os velhotes do costume a cercar peças de dominó, pontos negros cruzados em marfim falsificado, risos e contrários inesperados no fluir do jogo. Perdes-te neles todos enquanto o silêncio vos separa. Sentas-te ao pedido dela. Quer falar sobre a distância daquela troca de palavras, sobre (ainda) qualquer coisa que não estimas. Querias responder-lhe num costume de abraço mas, imóvel, esperas (e nessa espera, aquela avó a ler o mesmo livro que leste ontem).

quinta-feira, maio 14, 2009

terça-feira, maio 12, 2009

de olhar estendido

Passo pelo tempo nestas esculturas de milénios. As paredes que ainda sobram, as desmedidas colunas, o obelisco possível no centro do templo. Nisto tudo uma camada quente de areia e memória dispersa. O Antigo Egipto vê-nos morrer, uma geração após outra, cada único presente refeito em passado, cada palavra destituída, cada sonho perdido. E eu ele nós turistas de cem línguas diferentes em semana apertada a observar-te, a fingir nesta passagem que te entendemos (saímos de Karnak para a estrada destes dias e na parede, numa fina sombra do sol de almoço, a criança um rapaz seis sete anos indiferente à gloriosa história na qual se apoia e de olhar estendido à minha mão).

quinta-feira, maio 07, 2009

terça-feira, maio 05, 2009

num degrau a ver este rio passar

São gritos a envolver a madrugada, são gente que de iguais têm tudo, lágrimas por chorar, promessas por cumprir, gestos por dar. É chegada a guerra, o sangue ao branco da neve, o sufocante rumor da artilharia. São as ruas a esvaziar a cidade, cem mil sonhos desfeitos a passar por portas e janelas já fechadas. É o carregar de dinheiro comida roupa caixas grandes pequenas, um velho e o seu quadro (de uma mulher e um piano desbotados na chuva que desce), outro sentado num degrau a ver este rio passar e ali um cão perdido. É no cais onde todos param e esperam. Ela fala como se fosse um até logo mas nos teus olhos de soldado o barco que chega e na tua mão a mão dela.

quinta-feira, abril 30, 2009

terça-feira, abril 28, 2009

rasgar

A noite pousou há muito e nela a lua nova, a silhueta cansada dos prédios sujos da cidade, os sons que restam das casas cheias. Um pontilhado de luz é o que sobra das horas e numa varanda outro como eu (creio) ambos neste calor de dia derramado, neste tremor do relógio ainda por ver, nesta espera de olhar a estrada que se perde após a curva, na partilha de uma falta (das notícias que não dás, desse respeito erigido ou então - esquece o resto - do teu sorriso). Oiço o elevador. Não a vi na rua, um desvio de olhar talvez, um fechar de olhos na lembrança do primeiro beijo e na promessa daquele abraço, uma distracção qualquer e agora a fechadura a abrir-se em ti. Não dizes nada, quase não olhas a varanda onde me congelo e avanças convicta para o quarto a rasgar-me a memória nesse silêncio.

quinta-feira, abril 23, 2009

terça-feira, abril 21, 2009

e interessa-te, essa resposta que ensaias?

Os cotovelos no balcão numa espera inesperada. Uma da manhã, o silêncio da noite que entra pela janela e o sono, apesar de agora começado o turno. No papel que desenhas traços a tua mão, no relógio a inquietude, no velho que dorme na segunda fila os teus olhos. Vês-lhe os punhos magros de uma qualquer fome, o casaco rasgado de anos atrás ainda trazido. Vês-lhe o tempo fugir como te foge, o mundo que passa fora desta sala de espera. Quantos velhos como este viste entrar? Menos dos que viste sair mas quantos? (e interessa-te, essa resposta que ensaias?). A morte rodeia-vos (ao hospital, aos doentes, a vocês que o fazem). A esperança também, e o sorrir e a alegria da cura, mas estes são de memória gasta no normal dos dias seguintes. De madrugada vêm lavar-vos paredes, o chão, as portas e o branco que os reveste. Só que não há nada que não se macule.

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